3 de ago. de 2002

Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo que eu acredito não me tape os ouvidos e a boca.


Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio.


Que a música que eu ouço ao longe seja linda, ainda, que triste. Que a mulher que eu amo seja sempre amada, mesmo que distante.


Porque metade de mim é partida e a outra metade é saudade.


Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor, apenas respeitadas como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimento.


Porque metade de mim é o que eu ouço, mas a outra metade é o que calo.


Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço. Que essa tensão que me coroe por dentro seja um dia recompensada.


Porque metade de mim é o que eu penso e a outra metade é vulcão.


Que o medo da solidão se afaste, que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável. Que o espelho reflita em meu rosto o doce sorriso que eu me lembro de ter dado na infância.


Porque metade de mim é a lembrança do que eu fui, a outra metade eu não sei ...


Que não seja preciso mais do que uma simples alegria para me aquietar o espírito. E que o teu silêncio me fale cada vez mais.


Porque metade de mim é abrigo, mas a outra metade é cansaço.


Que a arte nos apronte uma resposta, mesmo que ela não saiba, e que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer.


Porque metade de mim é platéia e a outra metade, a canção. E que a minha loucura seja perdoada.


Porque metade de mim é amor e a outra metade também !


By Oswaldo Montenegro

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